Nascimento das cidades

O fenômeno do surgimento de cidades é complexo e está associado com inúmeros parâmetros. Por isso, avaliar a gênese do urbano na América Pré-Colombiana e região da Crescente Fértil exige a aplicação de critérios significativamente importantes, definindo uma lógica de classificação e  metodologia de classificação.

A interação do homem com o homem e com o meio propicia um resultado que, usualmente, simplifica-se utilizando o termo cidade. Entretanto, as múltiplas civilizações produziram diferentes configurações espaciais e urbanas. Portanto, não é possível delimitar o conceito de cidade como uma simples receita de bolo, já que , cada ingrediente ( parâmetro) pode articular-se de maneira diferente , produzindo outros resultados. A exemplificação desse situação é a ocorrência de cidades em inúmeros pontos do planeta, cada uma à sua maneira e com características inerentes que as tornam peculiares.

Na América Pré- Colombiana surgem pontos de aglomeração de população, que gradativamente tecem uma trama urbana e tornam-se legítimas cidades. Como breve exemplo logo vem à mente Machu Picchu, Tenothtitlan e Cuzco, cidades que floresceram em regiões de proximidade geográfica, mas com notável diferenças. Outro caso é o das cidades mesopotâmicas, assírias, babilônicas que coabitam o espaço geográfico do Oriente Próximo, que semelhantemente, possuem cidades de tipos diferentes.

Dessa maneira, fica evidente que para atribuir à algo a denominação de urbano é preciso entender primeiro do que se trata este fenômeno, para ao fim aplicá-lo. Na Historiografia destacam-se autores que versam sobre o conceito de cidade tais como Childe, Hardoy e Lampard. Childe dedicou vários de seus trabalhos principais a análise das origens da vida urbana. Definiu dez critérios para que se utilizasse como método de classificação e distinção das primeiras cidades das primeiras aldeias. Para Childe, parâmetros como: o tamanho e a população; o aparecimento de especializações; a formação de um “capital efetivo” obtido através da taxação de impostos; a construção de obras públicas; a formação de uma classe governante com líderes; a invenção e utilização de sistema de escrita; começo de vestígios de ciências exatas ( geometria, astronomia, matemática, desenvolvimento de calendário); a criação de uma arte que possuísse estilo e sofisticados; o desenvolvimento de comércio; o abastecimento contínuo de matérias primas para artesãos.

Esses critérios apresentam-se como síntese de todo os estudos e reflexões desenvolvidos pelo arqueólogo Childe. No seu entendimento, a Arqueologia é uma forma de História e , seu estudo através de vestígios de cidades, pode auxiliar o entendimento de temáticas como essa, das cidades tão antigas. Além disso, o arqueólogo atenta para o fato de que a História é um elemento dinâmico e  transcende as  definições ortodoxas encerradas em livros. Portanto, para Childe, o urbano é extraordinariamente rico e produto da interação de dez fatores fundamentais. Todas as conclusões de Childe foram feitas sem o apoio do método Carbono 14, inventado em 1945. Esse método só veio validar tudo que ele havia escrito.

Hardoy propõe quatro critérios para definir uma cidade, são eles:  tamanho, densidade, traçado e permanência. Sugere que para uma conclusão verdadeira  é necessário analisa-los com base em crônicas e histórias escritas, comparando os com  suposições tais como clima, topografia, disponibilidade de água e outra condições ambientais.

Lampard discorre sobre fatores como a população, a presença de tecnologia, a organização e o ambiente como pressupostos para o aparecimento da urbanização. Um excerto de seus livro destaca: “A presença de cidades pressupõe um processo social de urbanização.” Portanto, para Lampard a rede urbana é fundamentada na existência desses quatro fatores.

Observa-se que os autores não são unânimes no que se refere à elaboração de parâmetros para definir cidade, mas todos destacam aspectos em comum, principalmente associados ao meio e ao homem. “           O conceito de cidade é essencialmente dinâmico e evoluciona com o tempo e o lugar, estando condicionado pelo meio ambiente, a estrutura socioeconômica e o nível tecnológico da sociedade a qual pertence o observador” ( HARDOY).

“ O conhecimento das primeiras tentativas do homem, em relação à vida urbana, tem disso, nos últimos tempos, ampliado pela expansão da pesquisa arqueológica e a introdução de novos métodos de pesquisa.” ( LAMPARD). O método para a comprovação dos parâmetros é a investigação arqueológica, que anda de mãos dadas com a Historiografia. Esse é o recursos fundamental para dar força às hipóteses desenvolvidas. “Acredito que  pelo menos três desse quatro critérios poderiam ser comprovados em muitos casos mediante reconhecimento arqueológicos superficiais.” ( HARDOY).

O surgimento das cidades não é homogêneo. Destaca-se o aparecimento povoados coletores de alimentos, que sofreram um  gradativa progressão, atingindo a  a produção mais ou menos efetiva de alimento, até atingirem o estágio de urbanização incipiente- definido por Lampard- antes mesmo da colonização espanhola. “ A urbanização efetiva foi conseguida, finalmente, no “crescente fértil” no Sudoeste da Ásia,  a partir do 4º milênio.”( LAMPARD). Esse processo, na Mesoamérica ocorreu tardiamente, apenas no primeiro milênio.

Tecnologias como a propagação e melhoramentos genéticos de vegetais e a criação de animais aceleraram expressivamente esse processo de urbanização. “O repertório agrícola da região dos Andes( que já incluía milhos e tuberosas) aumentos depois de 1400 D.C. pelo incremento da cultura do milho na Mesoamérica.” ( LAMPARD). A cidade constitui-se como uma série de novas instituições de tamanho e complexidade expressivas e dá lugar a uma urbanização incipiente, que o prenúncio de florescimento de uma cidade. Por isso, Lampard enfatiza: “ Quando a população tiver acumulado meios tecnológicos e requerido organização, a concentração urbana irá adquirir maior impulso que o próprio crescimento”. O aumento da população  provocou a adoção geral do milho como alimento principal, enquanto que a pesca e po restante dos produtos agrícolas foram considerados complementares à dieta.

O desenvolvimento de redes de contato entre cidades da mesoamérica deu-se desde a época em que figuravam como aldeias préclassicas . Construíram-se centro cerimoniais e produziu-se uma distribuição espontânea de centros religiosos, comunitários e administrativos. Essa expansão, sem dúvida, é fruto do desenvolvimento de todos esses aparatos urbanos, que propiciaram a vida na cidade.

 

 

 

 

Bibliografia :

 

CHILDE, G. “A Revolução Urbana na Mesopotâmia” In: O que aconteceu na História    ( 1941) pag 94-118

HARDOY,H.” Prefácio / Uma cidade para su época y región / Las ciudades de la América indígena em comparación com otras ciudades preindustriales”. In: Ciudades pré-colombianas, Buenos Aires, pag 11-38.

LAMPARD, E. “Aspectos Históricos da Urbanização” In: hauser;Schnore Estudos da Urbanização pag 487-520

Sites consultados – Acesso em 12/09/2012

http://oridesmjr.blogspot.com.br/2012/07/trajetoria-do-arqueologo-vere-gordon.html

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